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São João de Campina

primeira mulher prefeita de Campina Grande

7 de outubro de 2026
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Vanderley de Brito & Ida Steinmüller*

Em 04 de agosto último, estivemos na residência da ex-prefeita de Campina Grande, Cozete Barbosa, para conhecê-la pessoalmente e entrevistá-la. Sinceramente, fomos preparados para sermos cuidadosos nas perguntas, pois esperávamos encontrar uma mulher magoada, depressiva e revoltada, mas não, muito pelo contrário, a mulher que nos recebeu era de uma simpatia vibrante, hospitaleira, bem-resolvida, humorada e muito falante.

A entrevista, agradabilíssima, durou mais de quatro horas e achamos tão interessante sua trajetória de vida que decidimos pesquisar em jornais antigos, panfletos da gestão e semanários oficiais, por semanas, para levantar uma breve e inédita biografia da ex-prefeita em contribuição à História de Campina Grande.

Cozete Barbosa Loureiro Garcia de Medeiros nasceu em 25 de fevereiro de 1956, em casa, na Rua Pernambuco, no bairro da Liberdade, filha de Francisco Avelino de Medeiros e Terezinha Barbosa. Seu pai era industrial, dono da fábrica do Sabão Sossego, uma marca histórica na cidade que ficou famosa nos anos de 1960 por seus comerciais radiofônicos gravados pelo célebre radialista Rosil Cavalcanti, de modo que Cozete se criou num lar abastado, sendo alfabetizada por Dona Neves, professora particular, e depois ingressou no Colégio da Imaculada Conceição, o tradicional Colégio das Damas.

Além disso, estudou piano, inglês, acordeon (com a professora Dinalva France) e também teatro, com o teatrólogo Wilson Maux.

Quando moça, com 1,70m de altura e muita energia, ela jogava no time de basquete e handebol das Damas, sendo campeão paraibana de handebol, e, como era muito bonita, também participou de desfiles de moda, mesmo contra a vontade do namorado, Paulo de Tarso.

Em 1975, Cozete foi estudar no Colégio Pré-Universitário Campinense (CPUC), de Yara Macedo, que era um preparativo para o vestibular, e no ano seguinte ingressou na Universidade Federal da Paraíba, onde cursou Processamento de Dados, no campus de Campina Grande, tendo se formado em 1978, aos 22 anos, ano em que também se casou com Paulo de Tarso Medeiros e desse casamento nasceram dois filhos: Jack Garcia de Medeiros Neto e Marcel Barbosa Loureiro Garcia de Medeiros.

Com formação em computação, em 1979, Cozete foi contratada pela Prefeitura de Campina Grande como Analista de Sistemas e, em 1982, já grávida de seu segundo filho, ela cursou Administração num programa de pós-graduação da Universidade Estadual da Paraíba e a Fundação Getúlio Vargas.

Como funcionária pública, vinda da classe média, Cozete começou a se solidarizar com os colegas tão sofridos e mal remunerados e, de espírito combativo, passou a militar em favor das causas sociais e da política sindical, sendo ativa militante na luta pela redemocratização do país no início dos anos de 1980, e, como porta voz da democracia, tornou-se Relações Públicas da então Associação dos Servidores Públicos Municipais.

Cada vez mais atuante na luta em prol de uma sociedade mais justa, em 1985 Cozete se elegeu Diretora da Associação, onde, com muitas conquistas para a classe, se reelegeu em 1987, ano em que também se filiou ao Partido dos Trabalhadores, e, em 1989, a Associação transformou-se em sindicato, o Sindicato dos Trabalhadores Públicos Municipais do Agreste da Borborema – Sintab, sendo ela eleita a primeira residente.

Essa foi a sua fase mais ativa, liderou em Campina Grande a Greve Geral da CUT e o primeiro movimento grevista entre os funcionários públicos do município, fazendo piquetes, gritando palavras de ordem, lutando por reajustes salariais, pelos direitos das mulheres, combate a homofobia, a misoginia e, naturalmente, trocando tapas com policiais, em defesa da melhor qualidade de vida dos trabalhadores e excluídos.

Com seu estilo valente, militância apaixonada e espírito de liderança, ela desenvolveu amplo trabalho na Executiva Estadual da Central Única dos Trabalhadores – CUT, do movimento sem-terra, sem-teto e do Movimento das Mulheres. Idealista, Cozete peitava atrevidamente os poderosos da política, levando o Sintab a um período tão vibrante que, em 1988, seu nome foi indicado para concorrer à Câmara dos Vereadores de Campina Grande.

Nesse pleito, Cozete obteve a quinta maior votação, quase 2 mil votos, mas não se elegeu para uma das 19 vagas da Câmara porque o PT não atingiu o quociente eleitoral, para se ter uma ideia, o quinto vereador eleito, Ari Ribeiro, se elegeu com menos da metade dos votos dela.

Mas Cozete é guerreira, e continuou de cabeça erguida lutando contra pela melhoria dos salários e plano de carreira para os professores do município, chegando a comandar manifestações de protesto de servidores municipais contra a gestão de Cássio Cunha Lima, promovendo, inclusive, o “enterro da educação municipal” em manifestação de rua com caixões, carpideiras e carros fúnebres. No curso de sua luta ela sofreu atentados e ameaças de morte.
Em 1990, indicada pelo partido, ousadamente ela disputou a Câmara Federal, sem sucesso, mas com expressiva votação. Divorciou-se em 1991 e em 1994 disputou a Assembleia Legislativa, sendo a mais votada do partido, com mais de 6 mil votos em Campina Grande, ficando na terceira suplência.

Em Campina Grande, a sua imagem de mulher valente e destemida crescia cada vez mais e em 1996, mesmo estigmatizada por ser mulher e divorciada, Cozete, se elegeu para a Câmara Municipal, sendo a segunda mais votada entre os vereadores eleitos, com 3.870 votos, abaixo apenas de Rômulo Gouveia que teve 4.028 votos, ou seja, Cozete teve apenas 158 votos a menos que o primeiro colocado.

Assim que ingressou na Câmara Municipal, Cozete mostrou a que veio, ao criticar o Presidente da Câmara, Rômulo Gouveia, pelas suas medidas “superficiais” de contenção de gastos do Legislativo, sugerindo que ele deveria começar pelo enxugamento dos salários dos vereadores e a redução de pelo menos 50% da ajuda de custos anual que os edis recebem.

Como vereadora, a petista manteve suas lutas por justiça social, tendo apoiado a luta pela regulamentação do sistema de moto-taxi na cidade e, em 1998, eleita a melhor vereadora do ano, com sua peculiar ousadia ela concorreu ao Senado Federal pelo PT. Não conseguiu a vaga, mas ficou em terceiro lugar, com uma votação muito expressiva.

Com sua militância apaixonada, vibrante e contagiante, Cozete tornou-se uma referência de luta em Campina Grande, e as votações extraordinárias que vinha acumulando motivou o então prefeito Cássio Cunha Lima, seu maior adversário, a convidá-la para compor chapa ao seu lado, como candidata a vice-prefeita para o pleito do ano de 2000, onde ele concorreria à reeleição.

Em política tudo é possível e à improvável aliança entre PMDB e PT, que gerou enorme resistência e divisão entre as alas do PT, recebeu, enfim, o aval do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores e a chapa Cássio-Cozete venceu a eleição com folga no primeiro turno, obtendo 71,35% de aprovação do eleitorado campinense.

Mas, dois anos depois, a vida de Cozete sofreu um reviravolta de 180 graus, pois Cássio renunciou a prefeitura para sair candidato ao governo da Paraíba e ela, sua vice, assumiu a prefeitura em 5 de abril de 2002, para concluir o mandato em curso, recebendo a coroa de rainha da Borborema e entrando para a História, aos 46 anos de idade, como a primeira (e, até agora, única) mulher prefeita de Campina Grande, município que à época tinha 350 mil habitantes, muitos débitos a quitar e os problemas próprios de uma metrópole.

Ao assumir a prefeitura, Cozete mudou o visual, cortando o cabelo, talvez para dar um ar administrativo, mas essa mudança não foi bem recebida pelo seu eleitorado esse seu novo perfil um tanto que conservador.

No exercício da prefeitura de Campina, sob o slogan “Um jeito novo de Cuidar das Pessoas” a gestão de Cozete realizou inúmeras ações, sobretudo no campo de programas sociais, como o Projeto Digna, para a alfabetização, no método Paulo Freire, e qualificação de mulheres adultas, inclusive com bolsa para estudar, o Projeto Ruanda, para dar assistência as crianças de rua, a Casa de Passagem, para dar abrigo e alimentação a desabrigados e mulheres ameaçadas de morte pelos companheiros, realizou capacitações de profissionais de saúde nos programas PSF e SAMU, do Governo Federal, criou um programa para reduzir as filas nos hospitais, custeou confecções de próteses dentárias, tratamento de canal e aparelhos ortodônticos, realizou atividades no sentido de erradicar o trabalho infantil no lixão do Serrotão.

Criou o Banco do Povo para dar empréstimos a micros e pequenos empreendi-mentos, implantou a 2ª fase do ensino fundamental nas escolas municipais, o serviço de atenção especializada aos portadores de aids, uma Caps com serviços de clínica psiquiatra, assistência social e desintoxicação para dependentes de álcool e drogas, fez programas de incentivo à leitura, a distribuição de alimentos para os mais carentes em apoio ao projeto Fome Zero do Governo Federal, criou cooperativas de mulheres catadoras de lixo reciclável e investiu no atendimento PSF, que na sua gestão chegou a atingir 100% de cobertura na Zona Rural. Essas foram algumas ações assistencialistas de sua gestão, a lista é imensa, pois, no campo da assistência social, inegavelmente, Cozete foi uma “mãe” para os campinenses mais necessitados.

Também, na gestão da petista, há muitas obras a serem referenciadas, como a reforma dos mercados do Catolé e do Jeremias, a reforma do antigo Shopping Campina Grande, requalificando-o para a venda no atacado do setor de confecção têxtil, criou e construiu o Centro de Saúde das Malvinas, conseguiu recursos junto ao Governo Federal para a instalação do SAMU em Campina Grande, que foi a primeira cidade do Nordeste a receber esse serviço, reformou a Praça Tenente Alfredo Dantas a realizou uma reforma total do Parque Evaldo Cruz, com pistas de caminhada, quiosques, novas escadarias de acesso e a cobertura do fosso circular.

Preocupada, sobretudo, com os bairros mais carentes, Cozete ainda realizou serviços de esgotamento sanitário nos bairros de Bodocongó, Presidente Médici, Mutirão, Jardim Continental, Ramadinha I e Mirante, além da pavimentação de diversas ruas nos bairros do Catolé, Santa Rosa, Quarenta, Monte Santo e Jardim Borborema. Construiu a Escola Paulo Freire, no Mutirão, uma escola padrão com capacidade para 500 alunos, reformou a Estação Velha, reabrindo o Museu do Algodão que estava fechado, instalou um caixa eletrônico e um berçário público no Shopping Edson Diniz, para as mães que trabalham no comércio, construiu uma creche municipal no Jardim Continental com capacidade para 190 crianças, e ainda fez recapeamentos asfálticos, construiu cisternas de placa na zona rural, projetos de peixamento de açudes nas áreas periféricas da cidade, reabriu o hospital de Galante, construiu um grupo escolar no Bairro das Cidades, ergueu o Mausoléu da Imprensa no Cemitério do Araxá, implantou oito novas linhas de ônibus na cidade para os bairros desprovidos do serviço, criou uma clínica municipal para dar apoio psicológico aos servidores públicos, uma unidade básica de saúde e uma escola no bairro dos Cuités, reformou o Centro de Saúde Francisco Pinto.

Realizou a ampliação do ISEA, aumentando em 50% os leitos da unidade, conseguiu junto aio Governo do Estado a instalação da primeira Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher da cidade, criou o Serviço Municipal de Atendimento ao Consumidor – Procon, conseguiu a regulamentação da profissão dos Agentes de Saúde, desenvolveu programas de educação no trânsito, criou 900 novos cargos na pasta da educação e deu aumento salarial e gratificações de produtividade para os servidores públicos efetivos.

No campo cultural, Cozete revitalizou o Projeto Pixinguinha, apoiou os artesãos campinenses, promovendo exposições, feiras e programas de capacitação, deu apoio logístico e financeiro a eventos, como o Encontro para a Nova Consciência, a Micarande, o Maior são João do Mundo, o Festival de Inverno e o Auto de Natal, além de promover a informatização das escolas municipais e dar incentivos ao desenvolvimento científico e tecnológico da cidade, reduzindo a carga tributária para empresas do setor e criando também o Prêmio Jovem Cientista para alunos das escolas públicas e particulares.

Talvez as obras de maior visibilidade de sua gestão foi o monumento “Farra de Bodega”, na Praça dos Três Mastros, à margem do Açude Velho, onde foram instaladas estátuas de bronze de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, ergueu o monumento com estátua em bronze de Vergniaud Wanderley na orla do Açude Velho, em frente à capela do São Vicente de Paulo, foi de Cozete também a concepção e construção do Centro de Zoonose de Campina Grande, em defesa da causa animal, a reforma total do antigo Cinema I, no Centro Cultural, transformando-o no Teatro Rosil Cavalcanti, adquiriu a casa que pertenceu ao ex-prefeito Severino Cabral, na Rua Getúlio Vargas, que foi reformada e nela instalada a Casa de Cultura e Memorial Severino Cabral, reunindo fotos, móveis e objetos de Cabral, além de um busto de bronze.

Reformou e pintou o prédio histórico do antigo Palácio da Municipalidade, na Rua Maciel Pinheiro, adaptando-o para a instalação da Biblioteca Municipal e fez a adaptação da nova sede da Câmara Municipal, no Largo do Açude Novo, com auditório para 300 pessoas e ambiente climatizado com mais conforto e comodidade para os vereadores, bem como sala de imprensa, arquivo, amplo estacionamento, gabinetes maiores e salão nobre para a realização de eventos adequado às exigências do legislativo.

Cozete ainda realizou em parceria com as empresas de transportes públicos o asfaltamento das ruas da cidade onde circulavam ônibus e realizou a reforma da Praça da Bandeira, com a implantação de banheiro público, bancos de granito e revestimento de porcelanato do púlpito e canteiros. Essa praça não passava por reforma há mais de dez anos.

Foram apenas dois anos e nove meses, porém, o último ano de sua gestão foi difícil e tumultuado, pois o Governo Federal impôs uma significativa redução no repasse do Fundo de Participação dos Municípios, para a concentração de recursos federais na União, e deu reajuste do salário mínimo, impactos que provocaram quedas de arrecadação e a quase falência dos municípios brasileiros. Diante desse cenário de desiquilíbrio nas finanças, cuja receita não somava nem 200 milhões por ano, Cozete se viu obrigada a cortar custos na máquina pública e renegociar dívidas acumuladas junto ao Governo do Estado, a União, ao INSS e as contribuições previdenciárias junto ao IPSEM, algumas dessas dívidas vinhas de gestões anteriores, como o Projeto Cura.

Nessa situação de crise, a prefeitura atrasou o pagamento dos servidores públicos, os repasses de parte das contribuições previdenciárias e contratos de fornecedores, gerando insatisfações, críticas severas e movimentos grevistas, inclusive do Sintab.

Em se tratando de ano eleitoral, sendo ela candidata à reeleição, a crise foi utilizada eleitoreiramente por políticos de oposição e também (principalmente) por aliados, para denegrir sua imagem, acusando-a de emissão de cheques sem fundos, improbidade administrativa e até o diretório local do PT ameaçava expulsá-la da legenda. No sentido severo de humilhar, depreciar e desqualificá-la enquanto candidata os críticos a rotulava de “sapatão” e a estigmatizava ainda por ser divorciada.

Com toda essa difamação misógina, aliada a insatisfação generalizada naquele momento de crise gerada na imprensa, a candidatura de Cozete cresceu ao longo doa no e ela alcançou uma rejeição superior a 30% na cidade, de modo que, mesmo no exercício do cargo, com 9,58% dos votos (18.978 sufrágios), ela não conseguiu passar para o segundo turno.

A eleição no segundo turno foi vencida por Veneziano Vital do Rêgo e, no processo de transição, Cozete deixou para a nova gestão um convênio firmado com o Governo Federal com recursos para a implantação do restaurante popular de Campina Grande, captou e deixou recursos para a urbanização do bairro do Pedregal III e deixou anteprojetos elaborados, com recursos garantidos, para a criação do Complexo Esportivo Estádio Plínio Lemos e de paisagismo para o canteiro central da Av. Dinamérica.

Cozete Barbosa deixou a prefeitura em 01 de janeiro de 2005, enfrentou processos por supostas irregularidades em sua gestão e, decepcionada com todas as agressões, injustiças e exclusões sofridas, desde então não mais disputou mandatos políticos. Tudo leva a crer que o maior problema da gestão de Cozete foi o fato dela ser mulher.

Atualmente, com três netas (Júlia, Clara e Beatriz) e um bisneto (Lucca), depois de mais de 20 anos afastada da vida pública, mesmo recolhida ao lar, o que mais nos impressionou durante a entrevista com a primeira mulher prefeita de Campina Grande foi que ela continua com aquele magnífico brilho no olhar que só grandes idealistas possuem.

vanderley e ida

Foto: ParaibaOnline

*Membros do Instituto Histórico de Campina Grande

Fonte: paraibaonline.com.br

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